Eu
era criança e lembro da minha mãe, pai, tios e avó com o broche de uma
estrelinha vermelha preso na roupa. Eu queria uma. Ganhei uma lilás (que
representa as mulheres no Partido) e anos mais tarde uma vermelha. Ganhei
também uma blusa onde homens de terno jogavam "sujeira" em direção ao
céu e algumas crianças de uma forma muito lúdica subiam em escadas e colocavam
aquelas mesmas estrelas que tínhamos nas roupas no céu negro. Havia a
inscrição: Eles inventaram a noite, e nós, as estrelas. Lá em casa falávamos
sobre política e o cartaz do Lula ficava exposto até depois das derrotas nas
urnas. Era uma maneira de dizer que havia esperança. Realmente acreditávamos
nos ideais do Partido dos Trabalhadores. Todos meus votos para presidente foram
do Lula e da Dilma.
Lembro
também do impeachment do Fernando Collor. Lembro de comemorarem lá em casa. Mas
acho que o normal para um país que vive esse processo é (na falta de outra
palavra) ressaca. Porque o Collor podia ser festejado e o PT não? Não é isso...
O PT tem uma história que representa uma luta linda e vitoriosa. Uma luta pelo
povo. Lula e Dilma marcaram nossa história. O primeiro, o cara. O cara que não
era doutor, mas movia o país com sua paixão, que no discurso da posse disse que
não sossegaria enquanto existisse um brasileiro que não fizesse as quatro
refeições básicas por dia. Um brilhante analfabeto. A segunda, uma mulher. Uma
sobrevivente. Fortalecida pela mesma luta. Pela briga pela democracia...
Mas
aí veio o Mensalão. Depois o Petrolão, as pedaladas...
Uma
sessão para destituir a presidenta acontece perante os presidentes do
legislativo e judiciário e realizado por um congresso vergonhoso, mas eleito
pelo povo. Está dentro do que a Constituição prevê. Agora quem decide é o
senado. A Constituição lhes dá essa oportunidade. Funciona assim em qualquer
democracia presidencialista. O que o Senado decidir, está decidido. Um
julgamento político. Puramente político, como a Constituição prevê...
Essas
são as regras do jogo. Precisamos é de força para mudá-las. Sente nojo de
política? Sente vergonha? É legítimo. É Justo. Os deputados não sabem
concordância? O Lula também não. E há quem diga que foi um presidente altamente
competente. Bolsonaro é um fascista imbecil? SIMMMMMM. Cunha é a personificação
de corrupção? Um calhamaço de evidências diz que sim, mas não foi condenado.
E
os outros todos citados na Lava Jato? Vamos cobrar do STF! Legislativo e
Executivo não tem culpa desta vez...
Hoje
carrego uma tristeza. Uma sensação de fracasso... Ver tudo que eu cresci
acreditando se esvaindo e se transformar em um espetáculo bizarro armado foi
frustrante. Chamem de golpe, de tchau querida... Os fogos comemorando a
abertura de um processo como esse me causa um baita desânimo. Assim como os
vizinhos se ofendendo, os amigos de vida e de redes sociais querendo vencer com
ódio e sangue... Sim, eu me ofendo a cada vai tomar no cú petralha, a cada
menção que quem defende a permanência do governo ganha alguma coisa, me
marginalizam por acreditar, me ofendo quando o exército de bolsomitos me agride
justamente pelo que me orgulho, ser: completamente diferente do
"mito". Meu poder de argumentação é dos bons, meu intelecto é
bastante desenvolvido, mas me dá preguiça e calo diante de tanto ódio e
baboseira... Por um bem maior... Meu sono é tranquilo.
Com a palavra, meu irmão...
Todo o esforço (vão, mas necessário) de ser
imparcial vai por água abaixo quando eu vejo a mágoa no olhar da minha mãe e da
minha irmã por toda essa situação. Eu tenho um pouco mais de frieza, e tento
(também em vão) não me envolver muito emocionalmente com assuntos de política,
de forma que nunca bloqueei nenhum único amigo durante essa crise, nem lembro
de nenhuma discussão que tive que não tenha terminado bem, mesmo na
discordância. Faz muito tempo, contudo, que deixei de opinar, parte porque acho
que tenho uma retórica muito agressiva, espertinha demais, o que só me faz
receber likes e ser ouvido por pessoas que previamente concordam comigo. No
final, era só um exercício de vaidade.
As ideias que sigo,
contudo, são maiores que um partido ou uma eleição. É possível separar o Lula
enquanto signo (operário que chegou a presidência e iniciou um processo de
aceleração do pagamento das nossas dívidas sociais) do Lula real. É possível
separar o que significa ter uma mulher como presidenta da sua administração do
Executivo. Eu não sei o que faz um ou outro ser mais ou menos sensíveis a
questões de classe e de gênero mas, definitivamente, isso é um nervo exposto na
minha família e Lula e Dilma são, nesse sentido, símbolos importantes e
imperfeitos do que a gente acredita.
Existe um abismo
gigante entre isso e ser a favor das coisas que o PT fez de ruim.
Isso é a identidade
delas e de muita gente, mas progressismo ainda é minoria nesse Brasilzão
conservador. E agora, no apogeu dos resultados das decisões erradas dos que se
passaram por progressistas para conseguir os votos dessa gente que eu amo, essa
própria identidade é marginalizada e elas estão chocadas com amigos e família
demonstrando o pior de si. A gente fica de boca aberta ao ver tanta gente querida
ceder a radicalismos. Radicalismos sutis, às vezes, como os textos cheios de
contorcionismo retórico que tentam desqualificar o governo Lula (ah, surfou a
onda do FHC!), ou radicalismos reacionários propriamente ditos (#bolsomito).
E agora, esse impeachment
amargo catalisa uma sensação de derrota, sim, mas quando olhamos pro lado e
vemos quem perdeu conosco, ficamos tranquilos de combater o bom combate. Nosso
sono ainda é tranquilo.
Eu, por minha vez, fico
numa situação complicada. Quero que a casca delas engrosse, que aguentem com
força tudo isso, que se empoderem. Ao mesmo tempo, queria ser um escudo pra
protegê-las das merdas que esses pela-sacos que não aguentam meia hora de ideia
comigo falam.
Pela primeira vez publico um texto do meu irmão. Ele é o Roberto, carioca, vascaíno, lindo, inteligente, simpático e com uma irmã bem braba!
Nenhum comentário:
Postar um comentário